Sabonete de babaçu, um símbolo da luta e resistência pela preservação dos babaçuais no Maranhão

“Eles diziam que o babaçu não tinha valor, que não servia pra nada”, conta Joana Rodrigues Alves, quebradeira de coco babaçu ao lembrar dos conflitos com fazendeiros que queriam derrubar as palmeiras de babaçu, há cerca de 30 anos, na comunidade de Ludovico, em Lago do Junco/MA, a 300 quilômetros de São Luís.
Ela integra um grupo de mulheres agroextrativistas da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Lago do Junco e Lago dos Rodrigues-MA (AMTR), que deu origem à fábrica de sabonete de óleo de babaçu. “Achamos melhor nos reunir para empatar a derrubada das palmeiras e fazer a fábrica de sabonete babaçu. Nosso produto surgiu como forma de resistência à derrubada e luta para preservar o meio ambiente”, conta Joana Alves.
O sabonete é feito a partir do óleo da amêndoa do babaçu, produzido por outra organização, a COPPALJ (Cooperativa de Pequenos Produtores Agroextrativistas do Lado do Junco e Lago dos Rodrigues), também do município de Lago do Junco. O trabalho todo inicia com a coleta de babaçu pelas mulheres que extraem a amêndoa, vendida nas cantinas da COPPALJ. Parte do óleo então produzido pela cooperativa, retorna às mulheres para a produção do sabonete.
Mais do que uma fonte de renda, o sabonete produzido pelas mulheres da AMTR, associação prestes a completar 30 anos de fundação, tem um forte significado de resistência e luta pela preservação dos babaçuais na região e acesso ao fruto da palmeira que é considerada uma mãe de muitos filhos. Na época, a implantação da fábrica, localizada na comunidade de Ludovico, em Lago do Junco, contou com a assessoria da Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (ASSEMA) e o apoio de várias organizações.
A AMTR é uma das sócias da ASSEMA, que desenvolve projetos de combate ao desmatamento na Amazônia Maranhense, com apoio do Fundo Amazônia, a partir do fortalecimento de atividades produtivas sustentáveis, tais como, agroextrativismo do babaçu e manejo florestal.
“Em 2018, a fábrica produziu cerca de 30 mil sabonetes. Temos três lotes de produção de 10 mil”, explica uma das gestoras da fábrica, Alodia Maria Sousa da Silva. “O sabonete de babaçu é muito bom. É um produto orgânico e quem usa e conhece, dá o devido valor para o nosso babaçu”, afirma a diretora, ressaltando que a procurado pelo produto é sempre em feiras agropecuárias é sempre muito grande, mas também é comercializado em pontos de venda da ASSEMA. O sabonete tem três essências: palmo, lavanda e erva-doce.
“Do babaçu se aproveita tudo, da raiz às folhas”, afirma quebradeira de coco babaçu e diretora Nazira Pereira da Silva, conhecida como dona Naná, que é também sócia e fundadora da AMTR. Ela conta que a união das mulheres para a criação da fábrica de sabonete iniciou muito cedo, durante discussões em clubes de mães sobre as suas necessidades.
“Nestas discussões, percebemos que tínhamos direitos e que tínhamos uma luta em comum para manter a palmeira de babaçu em pé. Aí resgatamos a história do sabão de babaçu que nossas mães já faziam no passado. Quando conseguimos criar a associação, a AMTR, pensamos em um produto do babaçu que agregasse recurso e valor e mostrasse ao mundo para que a sociedade se interessasse também em ajudar a gente para evitar a derrubada da palmeira, que na época estava para se acabar”, lembra dona Naná.
Valorização, preservação e livre acesso aos babaçuais, reconhecimento do papel produtivo da mulher no agroextrativismo e na sociedade é o que move e sempre moveu estas mulheres que se enchem de orgulho da produção do sabonete de babaçu. “Este produto para nós é muito especial e quem conhece a nossa história valoriza”, afirma dona Nana.
Estima-se que hajam cerca de 400 mil mulheres quebradeiras e coco babaçu no Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins, onde está a maior concentração das florestas de babaçuais no país. Trata-se de uma área de convergência entre o Cerrado e a Floresta Amazônia.

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